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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Carta à Igreja de Esmirna


“Isto diz o primeiro e o último, que foi morto e reviveu: Conheço as tuas obras e tribulação e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que dizem ser judeus, e não o são, porém são sinagoga de Satanás. Não temas o que hás de padecer. Eis que o Diabo está para lançar alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. O que vencer, de modo algum sofrerá o dano da segunda morte” (Ap.2.8-11).

Esmirna significa mirra, que é a resina perfumada produzida pela árvore de mesmo nome ao ser ferida. A mirra é usada na produção de perfume. Foi também um componente do óleo da unção, na época de Moisés e um dos presentes levados pelos magos ao menino Jesus. A substância tornou-se símbolo de amargura e sofrimento.

O nome daquela cidade da Ásia Menor era bastante adequado à realidade da igreja que ali se encontrava: um povo sofredor que, em meio às aflições, exalava o bom perfume de Cristo.

“Conheço as tuas obras, tribulação e pobreza”.

Hoje, muitas pessoas têm um conceito fantasioso sobre o cristianismo, como se este garantisse um mar de rosas ou um paraíso na terra. Aquela igreja, como tantas outras, conhecia muito bem o trabalho árduo, a tribulação e a pobreza, embora fosse espiritualmente rica. A igreja de Laodicéia, ao contrário, era materialmente rica e espiritualmente miserável. A riqueza material não é, em si mesma, maligna, mas o erro está em colocá-la em evidência, tornando-a prioritária, como se o evangelho estivesse a ela vinculado. É o que acontece com a falsa doutrina da prosperidade. Certamente, alguns crentes atuais, se vivessem naquela época, pediriam sua transferência para a congregação de Laodicéia.

O Senhor mandou dizer aos cristãos de Esmirna: “Não temas o que hás de padecer”. Além de tudo o que aquela igreja tinha passado, ainda viriam mais tribulações. Contudo, em todas elas havia um propósito divino.

“O Diabo lançará alguns de vós na prisão”.

No meio da carta, existe menção a um personagem indesejável: Satanás. Gostaríamos que seu nome não estivesse ali, assim como não queremos considerar a possibilidade de sua interferência ou intromissão em nossas vidas. Alguns irmãos até imaginam que possam estar muito distantes da ação do inimigo. Entretanto, somos soldados, estamos numa guerra espiritual, e a proximidade do inimigo não nos deve parecer estranha. O Diabo lançaria alguns daqueles cristãos na prisão. Pode parecer incrível que ele possa fazer algo assim na vida do crente, mas, nesse caso, o fator determinante é a permissão divina em função dos seus propósitos soberanos. O texto não está se referindo à prisão espiritual, mas natural. Naquele tempo, o imperador romano estava perseguindo a igreja, prendendo os cristãos e matando muitos deles.

Esse quadro é bastante contrário à cosmovisão de alguns crentes hodiernos que, baseados num conceito distorcido de batalha espiritual, supõem que repreendendo Satanás possam resolver todos os problemas da vida. Existem casos em que a repreensão é apropriada, como nas possessões demoníacas, por exemplo. Precisamos, porém, estar conscientes de que algumas situações são determinadas por Deus e não poderão ser evitadas ou interrompidas. Lembremo-nos da história de Jó que, por permissão divina, foi afligido pelo inimigo.

“Para que sejais tentados.”

A expressão “para que” indica um propósito. Nada acontece por acaso na vida do cristão. Muitas coisas vêm como consequência dos nossos atos, outras ocorrem porque Deus tem um objetivo através delas. Nesse caso específico, o propósito seria a tentação. Deus permite uma situação adversa para que a tentação ocorra, pois ela é necessária na vida do crente. Afinal, se Cristo foi tentado, por quê nós não haveríamos de ser? Gostaríamos que todas as situações desagradáveis fossem evitadas, e até oramos por isso. Entretanto, muitas dessas orações não serão atendidas porque a tentação precisa vir.

Como a prisão poderia se tornar local de tentação? Aqueles cristãos presos seriam acometidos por pensamentos, reflexões e questionamentos a respeito da fé. Alguns deles perguntariam: “Por quê Deus permitiu isso? Eu sou filho dele, sou fiel, sou dizimista, sou servo do Senhor”. Não é o que acontece conosco? Quantos questionamentos vêm à nossa mente quando estamos debaixo da tribulação? Nesse momento, somos tentados a duvidar da presença de Deus e do seu amor para conosco. Nos piores momentos, somos tentados a negar a nossa fé e blasfemar contra Deus. Assim foi a tentação de Jó. A certa altura dos fatos, sua esposa lhe disse: “Amaldiçoa o teu Deus e morre.” Aquela foi a sugestão satânica nos lábios de uma mulher.

“Tereis uma tribulação de dez dias”.

Algumas situações têm prazo determinado. É uma realidade bíblica. Como exemplos, podemos citar os 7 anos de fome no Egito, os 400 anos de escravidão dos israelitas e os 70 anos de cativeiro babilônico. Deus determinou o tempo daquelas tribulações. O povo podia orar, jejuar e expulsar demônios, mas o problema permaneceria até que se cumprisse o prazo estipulado por Deus. Não podemos fazer uma regra nesse sentido, porque muitos males podem ser resolvidos imediatamente, conforme vemos em diversos episódios bíblicos. Entretanto, não podemos ignorar a possibilidade dos prazos determinados, porque esta será a explicacão para algumas orações não atendidas. Aquela igreja poderia orar, mas a tribulação duraria dez dias, nem mais nem menos. Devemos orar sempre, mas precisamos também pedir o discernimento ao Senhor para não tomarmos atitudes e conclusões precipitadas. A tribulação continuará até que tenha produzido os resultados para os quais ela foi permitida pelo Senhor. Assim como Jesus não podia descer da cruz antes de sua morte, também nós não poderemos interromper algumas situações que nos sobrevêm. A lagarta não pode sair do casulo enquanto não se completar sua metamorfose. Interferir no processo seria um desastre fatal.

O propósito da tribulação

Estamos diante de um aspecto que não pode ser plenamente compreendido ou explicado. Contudo, podemos propor algumas reflexões sobre os propósitos da tribulação. Paulo disse que a tribulação produz paciência, experiência e esperança (Rm.5.3-4). As situações difíceis que enfrentamos têm por objetivo nos ensinar muitas lições e desenvolver em nós virtudes e habilidades que, de outra forma, não teríamos. O atleta levanta pesos cada vez maiores afim de desenvolver seus músculos, sua força e sua resistência. Da mesma forma, os desafios da vida podem nos tornar experientes, capazes e maduros, mas esses resultados não são alcançados por quem vive fugindo ou interrompendo seus exercícios.

Sabemos também que a tribulação revela quem é o falso cristão e quem é o verdadeiro, assim como, na parábola de Jesus, a tempestade testou os alicerces das duas casas.

Na igreja de Esmirna havia uma mistura, conforme percebemos no texto. A tribulação seria a prova. Dali sairiam os vencedores e os derrotados. Os falsos blasfemariam contra Deus, mas os verdadeiros permaneceriam fiéis. O Senhor já sabe quem é trigo e quem é joio. Entretanto, a prova é necessária para o auto-conhecimento e para o testemunho diante do mundo. Ser fiel enquanto tudo vai bem não causa nenhum impacto nos ímpios. Todavia, se somos fiéis nas piores situações, então nosso testemunho se reveste de uma força impressionante. Tal testemunho também fará calar o próprio Satanás que, conforme lemos no livro de Jó, vive nos observando e aguardando para assistir nossa infidelidade e nosso fracasso.

Dez dias

Existe um aspecto positivo nesta medida temporal. O prazo nos mostra que a tribulação não é eterna. Tal afirmação beira o óbvio, mas, muitas vezes, nos sentimos e agimos como se o nosso problema nunca fosse acabar. Deus está no controle. Ele já determinou um ponto final para todo o nosso sofrimento.

Enquanto isso... espere.

Esperar é uma palavra cada vez mais abominável para o homem moderno, cuja vida está repleta de recursos tecnológicos que oferecem resultados imediatos. Porém, a bíblia nos ensina a ser como o homem do campo que, ainda na atualidade, depois de semear, precisa esperar a chuva, a produção da lavoura e o amadurecimento do grão.

Se Deus sempre nos atendesse imediatamente, resolvendo todos os nossos problemas, não precisaríamos de qualidades tais como a paciência, a perseverança e a longanimidade. Vemos, portanto, que, em muitas situações, precisaremos esperar. Aguarde o tempo certo, a melhor ocasião, sabendo que o Senhor tem a hora propícia para todos os propósitos. Por exemplo, existe o tempo adequado para estudar, casar, ter filhos, etc. A precipitação tem causado inversões indevidas, produzindo consequências graves na vida. Saber esperar é uma virtude, desde que não seja para sempre.

Esperar como?

Muitos estão esperando o livramento, o fim da tribulação, mas, enquanto isso, murmuram, reclamam, blasfemam, pecam. Esta não é a maneira correta de esperar. O Senhor disse: “Sê fiel até a morte”. Espere sendo fiel. Assim como Jó não blasfemou contra Deus, mas adorou, adoremos ao Senhor em todas as situações. Outro exemplo maravilhoso é o de José do Egito que, sendo escravo e prisioneiro, permaneceu fiel ao Senhor.

Palavras de esperança

A carta à igreja de Esmirna contém muitos elementos negativos: tribulação, prisão, tentação e morte. Porém, vemos também ali palavras do Senhor para confortar aqueles irmãos. Antes de tudo, é importante ressaltar que Jesus é o autor daquela carta, e ele diz: “Conheço as tuas obras, tribulação e pobreza”. Ele conhece; ele sabe de todas as coisas. Nada lhe passa despercebido. Em alguns momentos, podemos pensar que ele nos esqueceu, mas isto não é verdade. Ele nos contempla e conhece tudo o que passamos nesta vida. Em todas as cartas às igrejas da Ásia, encontramos este verbo: “conheço”. Jesus não apenas conhece, mas tem o controle da situação. Por isso ele diz: “Não temas” (2.10). Não permita que o medo domine seu coração, mas creia no Senhor.

“Dar-te-ei a coroa da vida”.

A caminhada do cristão pode ser árdua em muitos momentos, mas temos a promessa gloriosa da vida eterna. Se formos fiéis e aprovados, seremos coroados pelo Senhor. Qualquer interferência do inimigo terá sido incidente de menor importância no meio do caminho. Jesus é o primeiro e o último (2.8). Ele se apresenta como “aquele que foi morto e reviveu”. Este é o modelo para a igreja. Ainda que sejamos mortos por causa do evangelho, reviveremos para a vida eterna com o nosso Senhor Jesus Cristo. A carta à igreja de Esmirna não serve como incentivo a um “cristianismo” com enfoque terreno, imediatista e materialista, mas um cristianismo segundo Jesus Cristo, que nos leva a pensar nas coisas celestiais, em valores eternos, em vida eterna.

“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas”.

Observe que esta frase fala “às igrejas” e não apenas à igreja de Esmirna. Portanto, aquela carta é também para nós. Devemos meditar nela e viver os princípios ali contidos, uma vida de vencedores para a glória do Senhor Jesus.


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

domingo, 12 de julho de 2009

Carta à Igreja de Éfeso

Assim diz o Senhor Jesus: "Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência... Trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste... Tenho porém contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste e arrepende-te." (Apocalipse 2.2-5). Aqueles irmãos tiveram um início glorioso em sua experiência com Deus. A epístola de Paulo aos Efésios nos dá a entender que aquela igreja não era problemática, como a de Corinto por exemplo. Os efésios eram espirituais, entusiasmados e abençoados no princípio.

Contudo, o tempo passou e algo mudou. Aparentemente, tudo estava como antes: as obras continuavam a todo vapor. A igreja de Éfeso era muito ativa e trabalhadora. Entretanto, a essência estava comprometida. Havia muito trabalho e pouco amor; muita atividade humana e pouca unção do Espírito.

Veio então a palavra do Senhor com o objetivo de avivar a sua igreja. E o que é avivamento? É renovação. É reanimar. É dar vida. Avivamento não é sinônimo de barulho, música agitada, palmas e gritos. Tudo isso pode, eventualmente, ocorrer em nossos cultos, mas o avivamento legítimo é o resgate de valores espirituais outrora abandonados.

Seu fundamento está firmado em três fatores indispensáveis: estudo da Bíblia, oração e arrependimento. Esses elementos "movem a mão de Deus" a favor do seu povo. Esta afirmação é fiel e digna de crédito porque o Senhor está comprometido com a sua Palavra, prometeu ouvir nossas orações e não rejeita um coração contrito e arrependido (Salmo 51). Não podemos, porém, separar esses três pontos. Palavra sem oração pode resultar em intelectualismo e heresia. Oração sem arrependimento do pecado não produz nenhum efeito. E arrependimento, sem um confronto com a Palavra de Deus, é impossível, pois é a Bíblia que nos mostra nossas falhas, enquanto o Espírito Santo nos convence.

É bom lembrar o que diz em II Crônicas 7.14: "E se o meu povo que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra."

No contexto em que esse versículo foi escrito, sarar a terra significava fazer cessar as pragas na lavoura, enviar a chuva, que estava tão escassa, e fazer com que houvesse grande produção no campo e no rebanho. Assim, a vida do povo seria beneficiada em todos os aspectos.

Isto é avivamento. Deus tira as pragas e maldições e derrama a sua bênção. Tudo começa com estudo da Bíblia, oração e arrependimento, e culmina com bênçãos sem medida. Seus principais efeitos na igreja são: renovação do nosso entusiasmo pela obra de Deus, grande número de conversões, manifestações de dons espirituais, despertamento de novos ministérios, além de bênçãos pessoais diversas.

Tudo isso é resultado do mover do Espírito Santo, que muitas vezes fica bloqueado pelos nossos pecados e pela nossa negligência.

Louvamos ao Senhor porque estamos notando a operação do Espírito de Deus em nossos dias. O resultado está aí. A obra está acontecendo. Vidas estão se convertendo e a igreja está crescendo. Meu irmão, não fique fora das águas do Espírito. O Senhor está operando. Não pensemos, porém, que o que temos visto é tudo. De modo nenhum! Isto é apenas uma pequena amostra do que Deus quer fazer no nosso meio. Vamos buscar ao Senhor cada dia mais. Assim, veremos a glória de Deus se manifestanto. Aleluia! Avivamento já!


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.

sábado, 11 de julho de 2009

Cartas às Sete Igrejas da Ásia

AQUI COMEÇA A SEQUÊNCIA DE ESTUDOS CARTAS AS SETE IGREJAS.




“A palavra de Deus para o seu povo”


As mensagens do Senhor Jesus às igrejas da Ásia encontram-se no Apocalipse e devem, portanto, ser consideradas a partir da essência e do propósito geral daquele livro. O apóstolo João o escreveu por volta do ano 95, quando os cristãos eram perseguidos pelo Império Romano. Era um tempo de tribulação e angústia, mas a palavra do Senhor foi enviada ao seu povo para consolar, exortar e edificar, mostrando aos filhos de Deus que o inimigo não prevaleceria, pois Cristo voltaria à terra para concluir o estabelecimento do seu reino.

As sete cartas têm estruturas semelhantes e alguns detalhes em comum, de modo que possamos ter uma visão geral das mesmas. Partindo de questões específicas das igrejas locais daquela época extraímos lições para a igreja universal em todos os tempos.

“Isto diz aquele que tem na sua mão direita as sete estrelas e anda no meio dos sete castiçais de ouro” (Ap.2.1)

As aflições daqueles dias podiam gerar muitos questionamentos na mente dos cristãos, principalmente dos mais fracos: será que o Senhor desamparou a sua igreja? Será que ele se esqueceu de nós ou não está vendo o nosso sofrimento? Contudo, o Senhor Jesus anda no meio dos sete castiçais de ouro, que são as sete igrejas, ou seja, ele não está ausente ou distante. Sua presença é uma realidade no meio do seu povo. As sete estrelas são os líderes das igrejas, que estão na mão direita de Cristo. Percebemos aí que eles gozam de toda a atenção e cuidado, além de estarem sob o controle e o senhorio do Mestre.

Os sete castiçais de ouro

O castiçal, símbolo da igreja, também chamado candelabro ou candeeiro, é um tipo de lamparina, com vários tubos cheios de azeite, em cujas extremidades ficam os pavios a serem acesos. A utilidade do castiçal é a iluminação. Assim acontece com a igreja. Ela não existe como enfeite, mas para ser luz do mundo. Entretanto, isto não acontecerá a não ser que ela esteja limpa e cheia do Espírito Santo. Só existe luz quando há fogo e sua presença indica que algo está sendo consumido, queimado. Podemos pressupor algum tipo de sofrimento, algum sacrifício nesse processo. O fato dos castiçais serem de ouro mostra o valor que as igrejas têm para o Senhor.

“Eu conheço as tuas obras, e o teu amor, e o teu serviço, e a tua fé e a tua paciência” (Ap.2.19).

Este é um ponto comum a todas as cartas. O Senhor afirma conhecer a vida da igreja (Ap.2.2, 9, 13, 19; 3.1, 8, 15). Nada escapa à percepção daquele cujos olhos são como chama de fogo (2.18). Ele contempla o exterior: obras, serviço, e também o interior: o amor, a fé e a paciência. Ele vê o que fazemos (obras), ouve o que falamos e sabe o que somos. Esses elementos estão em evidência nas cartas. O Senhor chama a atenção para a incoerência que muitas vezes existe entre os atos, as palavras e o ser. Observe o verbo "ser", nas formas "são" e "és" em: Ap.2.2,9; 3.9.

O fazer e o ser

As igrejas, em geral, faziam muitas obras, mas o amor e a fé nem sempre eram correspondentes. Encontramos as palavras “obra”, “serviço” e “trabalho” em Apocalipse 2.2, 3, 5, 6, 9, 13, 19, 22, 23, 26; 3.1, 2, 8, 15. Quase todos esses versículos se referem às boas obras, mas, em alguns casos, o Senhor está cobrando a essência, a motivação correta. Em Éfeso, por exemplo, o trabalho eram abundante, mas o primeiro amor tinha sido abandonado. Quando a obra está destituída da fé, as ações são regidas pela religiosidade, por mero costume ou obrigação.

O dizer e o ser

O texto toca algumas vezes na questão das palavras, principalmente naquilo que as pessoas diziam sobre si mesmas, quando, de fato, não eram. Era o caso daqueles que diziam ser apóstolos (2.2), dos que diziam ser judeus (2.9; 3.9), de Jezabel que se dizia profetiza (2.20) ou da igreja de Laodicéia que se dizia rica (3.17). O Senhor vem examinando, não a aparência ou as palavras, mas o interior, os rins e o coração (2.23). Com base nesse exame ele afirma que aquelas pessoas não eram aquilo que diziam.

Nomes e títulos

A palavra “nome” ocorre diversas vezes nas cartas: Ap.2.3, 13, 17; 3.1, 5, 8, 12. Percebemos que os títulos sempre foram muito valorizados, mesmo quando não correspondiam à verdade. Era o caso da igreja de Sardes que tinha nome de viva mas estava morta. O rótulo não correspondia ao conteúdo. Muitos queriam ser chamados de profetas (2.20) ou apóstolos (2.9) sem que o fossem. Alguns grupos também tinham seus nomes pomposos, como era o caso dos nicolaítas.

O Senhor vem mostrar a personalidade que se oculta atrás dos substantivos ou adjetivos, revelando que o mais importante é manter a fidelidade ao nome de Jesus e ter o próprio nome escrito no livro da vida, até que, na consumação dos séculos, cada servo de Deus receba um novo nome, e tenha sobre si escritos o nome de Deus, do Senhor Jesus e da nova Jerusalém.

Por ora, é importante observarmos se somos aquilo que o nosso título apresenta. As igrejas da atualidade têm sido muito criativas na definição de suas denominações. Resta saber se somos, de fato, tudo aquilo que nossa apresentação promete. O simples fato de nos chamarmos “cristãos” já é motivo suficiente para nos preocuparmos com o nosso modo de vida.

Infiltração na igreja

O Senhor denuncia a ação do inimigo dentro das igrejas através de pessoas com posição de liderança, simbolizadas por Balaão e Jezabel, e aparência religiosa, usando de profecias (2.20), doutrinas (2.14, 15) e sacrifícios (2.14,20) para enganar o povo. Por trás de propostas aparentemente positivas estão seus verdadeiros propósitos: a ganância financeira (Balaão - Jd.11), a idolatria e a corrupção sexual (Jezabel - Ap.2.20).

Erros e acertos

As cartas mostram um tipo de balanço da vida das igrejas. Depois de um exame profundo, o Senhor mostra o resultado de sua avaliação. Ele valoriza os acertos (2.2, 6, 9, 13, 19; 3.4, 8, 10) e repreende pelos erros (2.4, 14, 15, 20; 3.2, 15). Os acertos do passado são inutilizados pelos erros do presente (2.3-4). Entretanto, o Senhor declara seu amor pelas igrejas (3.19), em virtude do qual ainda está aberta a oportunidade para o arrependimento (2.5, 16, 21; 3.3, 19). Em Ap.3.9, Jesus diz à igreja de Filadélfia: “Eu te amo”. (Obs.: No Velho Testamento, Deus fez a mesma declaração à nação de Israel em Is.43.4).

Castigo e Galardão

O Senhor exorta cada igreja no sentido do arrependimento, da vigilância e da fidelidade. Tais cartas são avisos enfáticos, pois o juízo se aproxima. O verbo “vir” está em destaque, relacionado à segunda vinda de Cristo (2.5,16,25; 3.3,11). Sua vinda trará castigo (2.5,16,22,23; 3.3,16) e galardão. Ele vem buscar a sua igreja. Naquele dia, será feita a última avaliação dos que se dizem povo de Deus. Os falsos serão arrancados como o joio do meio do trigo. Os verdadeiros, os vencedores, receberão valiosas recompensas, conforme a promessa que encerra cada carta (2.7, 11, 17, 26; 3.5, 12, 21). O prêmio dos vencedores tem, quase sempre, uma ênfase espiritual, celestial e eterna. É a tônica do evangelho que, embora nos traga bênçãos terrenas, não está focalizado no imediatismo nem no materialismo.

Outro destaque fica por conta do verbo “ouvir” (2.7, 11, 17, 29; 3.3, 6, 13, 20, 22). Além de fazer, dizer e ser, precisamos ouvir a palavra do Senhor, pois ela indica o remédio para todos os males que afetam nossas vidas.

As cartas às sete igrejas da Ásia chegaram também a nós, não por acaso, mas pelo propósito eterno de Deus, o qual sabia que, em todos os tempos, ocorreriam heresias e pecados, mas haveria também um povo disposto a honrar o nome de Jesus.

“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas” .

Anísio Renato de Andrade
Bacharel em Teologia

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Lição 02 /JESUS, O FILHO ETERNO DE DEUS/Subsídios

JESUS, O FILHO ETERNO DE DEUS
Texto Áureo: I Jo. 1.1 - Leitura Bíblica em Classe: I Jo. 1.1-17; Jo. 1.1-4; Cl. 1.16,17

Objetivo: Mostrar que a sustentação da fé cristã repousa não só no fato de que Cristo está vivo, mas de que Ele é eterno.

INTRODUÇÃO
Os opositores de João negavam veementemente a divindade de Jesus. Para respondê-los e esclarecer a igreja, o Apóstolo revela que Cristo é o Verbo Eterno de Deus que se fez Carne e habitou entre os homens. Na lição de hoje, estudaremos a respeito do significado da expressão “Filho de Deus” nos escritos joaninos. Em Seguida, meditaremos a respeito do testemunho apostólico da encarnação do Verbo. E por fim, refletiremos sobre a eternidade de Cristo, o Verbo de Deus.

1. A EXPRESSÃO “O FILHO DE DEUS” NOS ESCRITOS JOANINOS
A expressão “Filho de Deus” é comumente usada não apenas no Evangelho de João para se referir a Cristo (Mt. 4.3; 16.16; Mc. 3.11; Lc. 1.35; 15.11; At. 8.37; Rm. 1.4; II Co. 1.19; Gl. 2.20; Ef. 4.13; Hb. 4.14). Nos escritos de João, essa expressão também acontece com certa freqüência (Jo. 10.36; I Jo. 1.18; 5.22; Ap. 2.18). Em algumas passagens do Novo Testamento, cristo é mostrado tão somente como o Filho (Mt. 11.27; Mc. 1.1; Jô. 1.18; 5.22; I Co. 15.28; Hb. 1.8; I Jô. 2.22). Em Jo. 3.16 Cristo é destacado por João como o Filho Unigênito. Em Lc. 1.32 Ele é descrito como o Filho do Altíssimo. O próprio Deus se refere a Cristo como “meu Filho amado” em várias situações (Mt. 3.17; Mc. 1.11; 9.7; Lc. 3.22; II Pe. 1.17; At. 13.33). Especificamente Nos escritos de João, a filiação divina tem como propósito mostrar a glória do Pai (Jo. 1.14) e tornar o Pai conhecido dos homens (Jo. 1.18). Conforme dito anteriormente, a essência singular da filiação de Cristo é destacado mediante o uso da expressão grega monogenés, isto é, unigênito. Com essa declaração João destaca que Cristo é o verdadeiro Deus (Jo. 20.31), e, desde a Eternidade, Cristo estava frente a frente com o Pai (Jo. 1.1). Nas Epístolas, João relaciona a filiação divina ao caráter messiânico de Jesus, para a revelação da vida eterna (I Jo. 5.20).

2. O TESTEMUNHO DA ENCARNAÇÃO DO VERBO
João testifica, na abertura da I Epístola, a respeito do “que sempre – desde o princípio – foi verdade quanto à Palavra da vida”, se referindo aquilo que já havia sido anunciado no Evangelho. O autor mostra, nesse trecho, a historicidade do Verbo Eterno. Ele entrou no tempo e foi manifestado aos homens. O Verbo se fez carne e se apresentou de modo que se tornou possível ouvi-lo, vê-lo e toca-lo. Assim, o Apóstolo pode testemunhar a respeito dessa revelação já que ouviu, viu e tocou, ressaltando assim suas credenciais. O propósito desse testemunho é que haja comunhão, incluindo a reconciliação com Deus em Cristo, pois nisso repousa a vida eterna. A revelação testemunhada por João visa trazer alegria, a felicidade completa que o evangelho de Cristo nos oferece. A alegria do Evangelho de Cristo é um tema comum nos escritos joaninos (Jô. 3.29; 15.11; 17.13; II Jô. 12). Essa declaração ecoa com o Sl. 16.1 “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra delícias perpetuamente”. O evangelho de Jesus é uma notícia alegre, pois nunca homem algum falou como Ele (Jô. 7.46). Aqueles que O ouviram foram privilegiados, foram, nas palavras do Senhor, bem-aventurados (Mt. 13.16,17; Lc. 10.23,24), mas os que crêem sem O ver também o são (Jo. 20.29), contanto que recebam a mensagem que Jesus ordenou que Suas testemunhas levassem adiante (Mt. 28.19-21; Mc. 16.15; At. 1.8).

3. A ETERNIDADE DO VERBO DE DEUS
O termo “verbo”, em Jo. 1.1, é às vezes traduzido por “palavra” em grego é “logos”. Há, na verdade, uma dificuldade para verter esse termo para uma outra língua. Alguns especialistas defendem que a expressão seria mais bem traduzida como “palavra em ação”. Isso porque o fundamento desse termo não seria a filosofia grega, mas o pensamento hebraico, que trata a respeito da palavra de Deus agindo sobre o mundo (Gn. 1; Sl. 33.6; Is. 7.3; 38.4; Sl. 104.20). O Verbo de Deus é Cristo cujas ações e palavras manifestam a revelação de Deus (Hb. 1.2) o que encontra eco nas palavras de Paulo em Cl. 1.16 afirmando que nEle – em Cristo – todas as coisas foram criadas e tudo subsiste. O Verbo é eterno, haja vista que Ele mesmo se apresenta como o Amém, o princípio da criação de Deus (Ap. 3.14). Em Jo. 1.15, João Batista declara a eternidade do Verbo ao reconhecer que Esse já existia antes dele. O profeta Isaias apresenta Cristo como o Deus Conosco e um dos seus atributos é o de ser Pai da Eternidade (Is. 9.6). Ao revelar-se como Filho de Deus e dizer que antes que Abraão existisse Ele já existia, Jesus incomodou os religiosos da Sua época, que quiseram apedrejá-lo por identificarem em suas declaração, uma identificação com a Deidade e um atributo da Sua existência eterna (Jo. 8.58).

CONCLUSÃO
Jesus é o Filho Eterno de Deus, não por criação – como os anjos, ou por adoção – como os crentes. Ele é, eternamente, o Filho de Deus, o unigênito do Pai. Quando se fez carne, Ele entrou na história da humanidade e revelou a glória de Deus. Por isso, podemos conhecer melhor o Pai, não apenas intelectivamente, mas afetivamente. Podemos ter um relacionamento mais íntimo com Ele porque Cristo, a Palavra Eterna, revelou um amor que até então era desconhecido. Por isso, como Tomé, podemos nos prostrar aos seus pés e declarar reverentemente “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo. 20.28) e também declarar Aba (Rm. 8.15; Gl. 4.6), certos de que seremos ouvidos pelo Pai Nosso que está no Ceu (Mt. 6.9).

BIBLIOGRAFIA
BOICE, J. M. As epistolas de João. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
STOTT, J. R. W. I, II e III João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1982.

Fonte:Subsídios EBD

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 7

"Devendo já ser mestres, pelo tempo, ainda necessitais que alguém vos ensine os rudimentos da palavra de Deus" - Heb.5.11.

O Senhor nos deu capacidade para realizarmos muito em sua obra e ele espera que o façamos. Porém, não vai esperar para sempre. Ele tem a eternidade à sua disposição, mas nós, enquanto seres mortais, não temos.

Pelo tempo transcorrido, os hebreus, a quem foi dirigida a epístola que leva seu nome, já deveriam ser mestres na palavra de Deus. Entretanto, estavam atrasados por causa da negligência. Devendo estar trabalhando, ainda davam trabalho.

Certa vez, Jesus contou a seguinte parábola: "Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha; e indo procurar fruto nela, não o achou. Disse então ao viticultor: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; para quê ocupa ela ainda a terra inutilmente? Respondeu-lhe ele: Senhor, deixa-a este ano ainda, até que eu cave em derredor, e lhe deite adubo; e se no futuro der fruto, bem; mas, se não, cortá-la-ás" (Lc.13.6-9).

Observe que a figueira estava no meio da vinha, que não era seu lugar. Sua simples permanência ali mostrava a misericórdia daquele proprietário. Apesar disso, a árvore não frutificava. Foi lhe dado então mais um prazo de um ano para produzir. O dono da vinha não esperaria eternamente.

A árvore que não produz bom fruto será cortada (Mt.3.10). Isto não significa, necessariamente, que ela esteja produzindo frutos maus. Ela pode, simplesmente, ser infrutífera. De qualquer modo, será cortada.

Existe um prazo determinado para a utilização do nosso potencial. Ele não será eterno. Existe um período de validade. Assim como, sob o aspecto natural, o ser humano em idade muito avançada não pode ter filhos, espiritualmente também existe um tempo de fertilidade para a concretização dos propósitos de Deus em nossas vidas.

O fruto e a semente devem ser aproveitados dentro de um prazo limitado. Depois disso, vai-se o sabor e finda-se a fertilidade.

Há tempo para tudo debaixo do sol: tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou (Ec.3.1-8).

Salomão escreveu também: "Semeia pela manhã a tua semente" (Ec.11.6). Não podemos deixar para mais tarde o que sabemos que deve ser feito agora.

Não podemos permitir que aconteça conosco o que ocorreu com os contemporâneos de Jeremias, conforme está escrito: "Passou a cega, findou o verão, e não estamos salvos" (Jr.8.20). Eles perderam todas as oportunidades e não usaram seu potencial.

Temos a tendência de adiar nossos propósitos. Dizemos que "ainda não chegou o tempo de edificarmos a casa do Senhor" (Ag.1.2), ou que "faltam ainda quatro meses para a ceifa". Entretanto, Jesus diz: "levantai os vossos olhos e vede os campos, que JÁ estão brancos para a ceifa" (João 4.35).

Em todas as áreas da vida existe o tempo para começar e para terminar. Quem começa quando deveria estar acabando pode não ter tempo para alcançar seu objetivo. Se eu, que nunca me dediquei ao futebol, resolver começar uma carreira como jogador profissional aos 38 anos de idade, serei apenas mais um fracassado.

Existe o tempo apropriado para cada propósito. Algumas coisas devem ser começadas bem cedo ou pelo menos devem ser tomadas atitudes no sentido da preparação daquilo que será realizado quanto chegar a época apropriada.

Por isso está escrito: "Ensina o menino no caminho em que deve andar; porque, ainda quando for velho, não se desviará dele" (Pv.22.12). Depois de escolhido um caminho, pode difícil mudar para outro, embora nem sempre seja impossível.

"Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos em que dirás: Não tenho prazer neles; antes que se escureçam o sol e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; no dia em que tremerem os guardas da casa, e se curvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas, e as portas da rua se fecharem; quando for baixo o ruído da moedura, e nos levantarmos à voz das aves, e todas as filhas da música ficarem abatidas; como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho; e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e falhar o desejo; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; antes que se rompa a cadeia de prata, ou se quebre o copo de ouro, ou se despedace o cântaro junto à fonte, ou se desfaça a roda junto à cisterna, e o pó volte à terra como era, e o espírito volte a Deus que o deu" (Ec.12.1-7).

Na velhice, será tarde demais para alguém começar a desenvolver ou utilizar plenamente seu potencial. Por outro lado, o idoso poderá ser muito útil se o seu estado atual for o ápice de um potencial bem desenvolvido durante toda a vida.

Jeremias escreveu: "Maldito aquele que fizer a obra do Senhor negligentemente, e maldito aquele que preservar do sangue a sua espada! Moabe tem estado descansando desde a sua mocidade, e tem repousado como vinho sobre as fezes; não foi deitado de vasilha em vasilha, nem foi para o cativeiro; por isso permanece nele o seu sabor, e o seu cheiro não se altera. Portanto, eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que lhe enviarei derramadores que o derramarão; e despejarão as suas vasilhas, e despedaçarão os seus jarros" (Jr.48.10-12).

Moabe esteve descansando desde a sua mocidade, repousando antes do tempo, descansando sem haver trabalhado. Seu potencial não foi utilizado. No texto de Jeremias, Deus é quem faz esta avaliação, assim como avaliou as igrejas em Apocalipse. Avaliemos nossa vida para não sermos julgados pelo Senhor. Ele haveria de enviar derramadores contra Moabe e o resultado final seria um grande prejuízo.

Não podemos deixar o tempo passar sem que o utilizemos de modo sábio. "Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação" (IICo.6.2).


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 6

"Eu vos escolhi, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça" - João 15.16

Deus deseja que sejamos úteis, férteis e abundantes em sua obra, mas, para isso, precisamos identificar nossos talentos e nossa área de atuação. Muitas pessoas vivem na dúvida em relação a isso, como se estivessem paradas em um cruzamento, sem saberem o rumo a ser seguido.

Como descobrir a vocação, o dom e o ministério?

Experimentação - "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças" (Ec.9.10). Quem está começando na obra de Deus tem oportunidade para fazer um pouco de tudo. Em se tratando de tarefas naturais, esta pode ser uma forma de descobrir sua afinidade com alguma função dentro da igreja ou opção profissional. Para isso é necessário disposição. Quem foge do trabalho nunca descobrirá o seu talento.

Gosto pessoal - Geralmente, seremos bons naquilo que gostamos de fazer. É verdade que Deus pode nos mandar realizar algo que não gostaríamos, mas creio que isto é a exceção e não a regra. O que você gosta de fazer? Isto pode ajudar na identificação da sua área de atuação. Por exemplo, quem gosta muito de trabalhar com crianças, poderá atuar nesta área na igreja.

Vontade - A função que almejamos será, provavelmente, a que corresponde ao nosso dom. Paulo escreveu a Timóteo: "Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja" (ITm.3.1). Ele levou em consideração o desejo individual como fator importante na definição ministerial. A vontade de realizar determinado tipo de trabalho deve ser considerada, pois ninguém poderá ser coagido na obra de Deus. Porém, o querer, por si só, não garante a existência do dom. Por exemplo, muitos querem cantar e tocar sem, contudo, terem as mínimas condições para isso.

Opinião de outras pessoas - Este fator pode ser importante na identificação do dom, desde que não seja o único. É possível que os outros percebam um talento antes que a própria pessoa o reconheça. A opinião alheia também será importante para confirmar ou não o que cada um pensa de si mesmo. Nesse caso, é preferível o parecer de alguém que seja maduro, especialista no assunto, ou um líder na igreja. O fato de Paulo dizer a Timóteo: "Faze a obra de um evangelista" (II Tm.4.5), além de ser uma ordem, vale como uma opinião de peso na definição ministerial daquele jovem.

Revelação - Sabemos que Timóteo não poderia ter qualquer dúvida sobre o seu dom e ministério, pois o mesmo foi anunciado por meio de profecias, sendo confirmado pelo apóstolo Paulo e pelos presbíteros.

A revelação, por si, já é suficiente para a identificação do dom ou ministério. Será ainda melhor, se alguém tiver uma série destes fatores como evidências de sua vocação.

Identificado o dom, precisamos colocá-lo em ação

Para utilizarmos o potencial que Deus nos deu, alcançando crescimento e produção extraordinária, será necessário adquirirmos conhecimento na área específica em que vamos atuar. Em seguida, devemos empreender o máximo esforço e disciplina no trabalho constante, planejado, com determinação e diligência.

"Viste um homem diligente em sua obra? Perante os reis será posto, e não entre os homens de pequena sorte" (Pv.22.29).

O dom não vem com algum dispositivo automático para funcionar. Timóteo tinha potencial para o ministério, mas precisava "despertar o dom", "insistir em ler", "fazer a obra", "ter cuidado de si mesmo e da doutrina", etc (ITm.1.18; 4,7-16; IITm.1.6; 2.15,22-24; 3.14-17; 4.2; 4.5);

"De modo que, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com zelo; o que usa de misericórdia, com alegria" (Rm.12.6-8).

Através da prática constante, a capacidade produz habilidade, que consiste no domínio da função exercida.

Qual é a motivação para utilizarmos nosso potencial?

Certa vez, Jesus disse ao povo: "Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui. Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus (Lc.12.15-21).

Aquele homem demonstrou que possuía visão para o crescimento e tomou providências nesse sentido. Entretanto, sua motivação era o egoísmo e seu campo de ação era apenas material.

É importante e necessário que desenvolvamos nossas capacidades naturais e profissionais. Contudo, não podemos relegar o reino de Deus a segundo plano, pois isto pode nos custar caro. Por outro lado, não podemos servir ao Reino com segundas intenções, visando o benefício material que isso possa nos trazer. O uso do nosso potencial deve ter como propósito a glória de Deus, o benefício do próximo e a salvação das almas.


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

terça-feira, 7 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 5

"O povo que conhece o seu Deus se esforçará e fará proezas" - Dn.11.32.

A bíblia nos apresenta vários exemplos de pessoas que utilizaram a capacidade dada pelo Senhor, venceram suas próprias limitações e se tornaram heróis da fé.

José foi vendido como escravo, mas tornou-se governador do Egito, a maior nação daquela época.

Moisés nasceu como escravo, condenado à morte. Contudo, tornou-se profeta, legislador e juiz.

Davi era um simples pastor de ovelhas, o menor entre seus irmãos, mas chegou a ser o grande rei de Israel.

Nós também podemos ir muito além de onde fomos e fazer muito mais do que tudo o que fizemos até agora. O que somos não é o fim da nossa história. Avaliando nossa condição atual podemos ter diferentes sentimentos e atitudes. Podemos ficar satisfeitos e acomodados; podemos ficar insatisfeitos e viver reclamando, ou podemos transformar nossa insatisfação em iniciativas na direção do crescimento, como fez o filho pródigo, ao dizer: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai..."

É muito comum vermos as pessoas reclamando da vida, do emprego, do salário, do patrão e do governo. A maioria espera que, algum dia, as coisas melhorem. Entretanto, poucos são os que fazem algo para que a sua situação individual mude. Sabendo que temos um potencial imenso, não podemos simplesmente viver esperando que alguém faça o que podemos fazer.

O filho pródigo poderia aguardar o dia em que os porcos se tornassem mais limpos, o patrão fosse mais bondoso e lhe desse algumas alfarrobas. Podia ser até que elas tivessem um sabor melhor e um cheiro agradável... Nada disso. É hora de levantar e andar. Somos filhos de Deus. Temos um potencial extraordinário. A pocilga não é o nosso lar.

Como utilizar o nosso potencial?

Existem duas maneiras de desperdiçar a vida: fazendo nada ou tentando fazer tudo ao mesmo tempo. É como o caçador que, se não perseguir nenhum animal ou se tentar capturar todos de uma só vez, poderá fracassar do mesmo jeito. O melhor então é definir um alvo específico. Mas, qual deles, dentre tantos que se apresentam?

Por exemplo, um menino pode vir a ser engenheiro, médico, dentista, psicólogo, juiz, professor, advogado, atleta, piloto de avião, cientista ou vendedor de enciclopédia. Sua capacidade física e mental é suficiente para o exercício de qualquer uma dessas profissões. Entretanto, ele não pode se dedicar a todas ao mesmo tempo, e talvez não viva o suficiente para realizá-las de modo consecutivo. Outro erro seria o desprezo a todas estas possibilidades, deixando a vida passar inutilmente, ou ainda escolher uma alternativa e parar no meio do caminho, deixando de crescer tanto quanto poderia.

Portanto, é necessário que identifiquemos o dom que Deus nos deu, seja natural ou espiritual. Não conseguiremos realizar todas as coisas ao mesmo tempo, mas existe algo que podemos fazer e faremos de modo excelente. A abelha, inseto tão pequeno e frágil, destaca-se entre todos os seres vivos porque é a única espécie em todo o universo que tem a capacidade de produzir mel. O ser humano ainda não conseguiu imitar com perfeição tal substância.

Cada um de nós precisa descobrir sua área de atuação e deixar de gastar tempo excessivo com outras coisas, tarefas ou objetivos. Imagine se uma abelha resolvesse construir um casulo. De fato, ela não precisa disso e tem outras coisas para fazer, conforme o dom que Deus lhe deu.

"Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com zelo; o que usa de misericórdia, com alegria" (Rm.12.4-8).

Seja na vida profissional ou ministerial, precisamos descobrir onde e como podemos usar nosso potencial de modo mais produtivo. Cada cristão precisa conhecer sua identidade enquanto membro do corpo de Cristo. Se o olho tentar falar, ele se sentirá inadequado e inútil. Será um fracasso. Se, porém, tentar enxergar, descobrirá sua real utilidade. Da mesma forma, algumas pessoas estão tentando exercer funções que não lhes são apropriadas. Por exemplo, alguém pode tentar pastorear quando, de fato, seu dom é voltado para o evangelismo.

"E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo" (Ef.4.11-12).

Jesus tinha plena consciência do propósito de sua vinda ao mundo. Ele disse:

"Eu não vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento" (Lc.5.32).

"Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir" (Mt.5.17).

"Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (João 10.10).

"Eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo (João 12.47).

"Perguntou-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade (João 18.37).

Sabendo a que veio e qual seria a hora certa para exercer seu ministério, Jesus não perderia tempo com outras atividades. Ele era bastante objetivo. O mesmo aconteceu depois com os apóstolos, inclusive com Paulo.

"Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho" (ICo.1.17).

"E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas" (At.6.2). Quando se recusaram a servirem às mesas das viúvas, os apóstolos podem ter sido considerados soberbos, arrogantes, etc, mas o que acontece é que eles tinham plena convicção do seu chamado. O desvio de função, naquele caso, poderia trazer danos permanentes para a igreja, que ficaria mal instruída na Palavra.

Identificada nossa área de atuação, devemos nos dedicar a ela de modo objetivo. Desta forma, nosso potencial será bem direcionado como a seiva de uma planta cujos galhos defeituosos foram podados. A objetividade no trabalho será favorável à quantidade e qualidade dos resultados.


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 4

Análise dos motivos que impedem o uso das capacidades individuais

Cada um de nós pode crescer muito nas mais diversas áreas, sejam naturais ou espirituais. Muitas vezes, isto não acontece, simplesmente porque ignoramos o poder que nos foi dado por Deus. Outras vezes, conhecemos nossas prerrogativas, mas desanimamos diante das dificuldades, reais ou imaginárias, tornando-nos como aquela semente que caiu entre as pedras e ficou infrutífera (Mt.13.20-21).

Vejamos alguns impedimentos ao desenvolvimento pessoal:

1- A falta de recursos - É difícil falar em utilização de potencial com alguém cujo maior desafio na vida é a própria sobrevivência. Refiro-me àqueles que vivem em extrema miséria, sem saber quando farão a próxima refeição.

Em situações menos extremas, a escassez de recursos materiais pode dificultar a execução de muitos projetos. Não podemos, porém, usar esse problema como justificativa para a inércia. Se não podemos fazer muito, não significa que estejamos absolutamente impedidos de realizar alguma coisa, por menor que seja.

Se não temos dinheiro para comprar uma granja, talvez possamos comprar uma galinha, que será o começo de tudo.

Por exemplo, a leitura pode ser de grande importância em nossas vidas e não depende apenas de dinheiro. Existem mais livros gratuitos à disposição do que pessoas dispostas a lê-los. São muitas as bibliotecas abertas ao público. E quantas vezes temos livros em casa, talvez a própria bíblia, mas não lemos.

Ocorre também o caso de pessoas com abundância de recursos, mas desprovidas da visão de um objetivo, ou simplesmente apegadas ao dinheiro, o que lhes impede de realizar algo de maior significado na vida.

2 - A preguiça é outro fator que trava a vida das pessoas. O preguiçoso pode não ser incapaz ou extremamente ignorante. Contudo, sua indisposição diante dos desafios cotidianos impede seu desenvolvimento. "Diz o preguiçoso: um leão está lá fora; serei morto no meio das ruas" (Pv.22.13). Ele sempre inventará uma desculpa para não se esforçar. O problema não está "lá fora", mas dentro dele.

Se alguém deseja utilizar seu potencial, deve estar disposto a enfrentar muito trabalho, pois nada de importante virá com facilidade.

3 - O medo - Muitos empreendimentos deixam de ser realizados por medo do fracasso, e isto acontece, principalmente, com aqueles que já tentaram uma vez e falharam. Aos 40 anos de idade, Moisés se levantou contra um egípcio para defender um hebreu. Matou aquele homem e fracassou em sua iniciativa a favor do seu povo. Muitos anos depois, Deus o manda voltar ao Egito para libertar Israel. Naquele momento, Moisés se considerava absolutamente inadequado para a missão, pois já falhara anteriormente. Entretanto, Deus insistiu com ele. Moisés voltou ao Egito, agindo em nome de Deus, com poder e autoridade, e o povo foi liberto.

O medo é algo natural, mas não podemos nos deixar vencer por ele. É claro que, em algumas situações, desconsiderá-lo pode ser estupidez, mas, em outras, recuar será sinal de covardia. Se fracassamos uma vez, não significa que acontecerá novamente.

Se o medo nos dominar, nem sairemos de casa. Aproveitando que estamos vivos, vamos agir. Toda iniciativa inclui o risco do fracasso, mas isto não pode nos deter. Corremos também o risco de sermos bem sucedidos, superando nossas expectativas. Afinal, a fé é oposta ao medo. "Porque Deus não nos deu espírito de temor, mas de poder, de amor e de moderação" (IITm.1.7).

4- A Auto-preservação - A utilização do nosso potencial inclui investimentos, desgastes, gastos e até algum prejuízo aparente. Para conseguirmos algo grande, talvez precisaremos abrir mão de alguma coisa pequena que já está em nosso poder (Mt.13.46). Muitos vacilam diante de tais desafios. Pode ser mais cômodo manter o status atual, ainda que medíocre. Vejamos o que escreveu Jeremias:

"Maldito aquele que fizer a obra do Senhor negligentemente, e maldito aquele que preservar do sangue a sua espada! Moabe tem estado descansando desde a sua mocidade, e tem repousado como vinho sobre as fezes; não foi deitado de vasilha em vasilha, nem foi para o cativeiro; por isso permanece nele o seu sabor, e o seu cheiro não se altera. Portanto, eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que lhe enviarei derramadores que o derramarão; e despejarão as suas vasilhas, e despedaçarão os seus jarros". (Jr.48.10-12).

Moabe adotou uma postura de omissão, deixando que outros fizessem o precisava ser feito, deixando que outros contribuíssem e se esforçassem. Com isso, preservou seus recursos, mas, em compensação, deixou de desenvolver e utilizar seu potencial. Ser negligente é se omitir, procurando fazer o mínimo para Deus, ou, de preferência, nada.

Aquele povo evitou situações de confronto, esquivou-se do cativeiro. Tais atitudes, à primeira vista, podem ser consideradas positivas. Contudo, fugir dos problemas também é uma forma de evitar o crescimento pessoal. Não é que vamos causar problemas, mas sim encarar de frente os que surgirem, no sentido de solucioná-los. A fuga por antecipação faz com muitos evitem o ministério, a profissão, o casamento ou a paternidade.

5 - O perfeccionismo - Muitas pessoas sabem o que podem fazer e onde querem chegar, mas pretendem realizá-lo só quando as condições forem ideais. É provável que jamais realizem algo, pois sempre falta algum elemento no cenário. É como aquele indivíduo que depende das nuvens e do vento para semear (Ec.11.4).

Não devemos ser relaxados nem perfeccionistas. É normal que iniciemos nossos projetos de modo simples, começando de baixo. Em seguida, procuraremos o aprimoramento constante rumo à excelência.

Aquele que espera um emprego extraordinário para iniciar sua carreira profissional, dificilmente iniciará. 6 - Pecados e embaraços. "Portanto, nós também, que estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta" (Heb.12.1).

Um atleta, por mais preparado que esteja, não pode correr amarrado ou sobrecarregado com pesos.

O pecado funciona como um dreno para o nosso potencial. Se nos entregarmos a ele, estaremos impossibilitados de exercer nossa missão. Seríamos como o jogador que gastou sua energia com tantas atividades que não conseguiu praticar seu esporte.

O embaraço, por sua vez, nem sempre é pecaminoso. Pode ser, simplesmente, a perda de tempo com coisas menores. Seria um erro na definição de prioridades. Parece algo inofensivo, mas é muito prejudicial.

Configura-se então a situação das sementes que caíram entre os espinhos. Foram sufocadas e não desenvolveram seu potencial (Mt.13.7). Foi o caso daquele homem que, sendo chamado para seguir Jesus, disse: "Deixa-me primeiro ir sepultar meu pai" (Mt.8.21), ou ainda como os convidados, na parábola da grande ceia, que se embaraçaram com tantas coisas, que não puderam comparecer ao banquete do rei. Seus impedimentos foram: o casamento, o campo e a junta de bois (Mt.22.1). Tais coisas não são, em si mesmas, pecaminosas, mas foram prejudiciais quando colocadas em primeiro lugar. É o caso de quem usa o casamento, os filhos ou o trabalho como desculpas para não irem à igreja ou não servirem a Deus de alguma forma.

Paulo escreveu aos Gálatas: "Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade"? (Gl.5.7). É necessário que cada um avalie sua própria situação, suas dificuldades, seus impedimentos, e o que pode ser feito de imediato para superá-los. No meio da tempestade, quando um navio está sobrecarregado e ameaça afundar, muitas coisas são lançadas ao mar (Jn.1.5; At.27.18,19,38). Existem aquelas que não podem ser descartadas, mas podem ser reorganizadas, de modo que o peso seja distribuído de forma mais equilibrada. É preciso que nossas vidas sejam arranjadas de tal forma que, além evitarmos o naufrágio, possamos utilizar nosso potencial, alcançando os alvos que Deus tem para nós.


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 3

Quais serão os motivos da inércia e do retrocesso em diversos aspectos da vida?

Como podemos parar de caminhar antes de chegarmos ao nosso destino? Não seria algo normal, mas é o que acontece com muitas pessoas que se sentem satisfeitas por terem percorrido metade da jornada. Temos condições para ir muito além, mas, por diversos motivos, deixamos de fazê-lo, desperdiçando a capacidade que o Senhor nos deu.

Muitas pessoas ignoram tanto sua própria capacidade quanto o poder de Deus.

Certo homem, visitando as instalações de um circo, viu um grande elefante amarrado por uma corda, cuja ponta se prendia a uma pequena estaca. Aproximando-se daquele que cuidava dos animais, perguntou-lhe: "Por quê um animal tão forte não arranca este pequeno pedaço de madeira que o prende". Respondeu-lhe o domador: "Ele não sabe que consegue. Quando ainda era filhote, eu o prendi à estaca, que era maior do que ele. Então, o elefantinho se debateu durante muitas horas, tentando se soltar. Aos poucos acostumou-se e nunca mais tentou fugir, mesmo depois de adulto".

Assim acontece aos seres humanos. Falta-lhes a consciência de sua identidade e potencial. Lembremo-nos de que até homens como Moisés (Ex.3.11), Gideão (Jz.6.15) e Jeremias (Jr.1.6) se esquivaram inicialmente diante do chamado divino porque não se consideravam capazes ou adequados para a missão.

A bíblia diz que somos filhos de Deus. Assim, como aconteceu com o filho pródigo (Lc.15.17-20), precisamos nos conscientizar da nossa herança, nossos direitos e prerrogativas, não num sentido egoísta, mas no propósito de sermos canais do extraordinário poder de Deus para abençoar muitas pessoas.

Paulo perguntou aos coríntios: "Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós"? (ICo.3.16). A falta do conhecimento de quem somos e do que podemos realizar torna-se um empecilho à obra de Deus através de nós.

Alguns deixam de usar seu potencial porque receberam algo de Deus ou fizeram alguma coisa para ele e pensam que tenha sido o suficiente.

Receberam migalhas e pensam que já é o pão. Nossas experiências espirituais são maravilhosas, mas não podemos permitir que elas sejam nossa estação final. Não podemos ficar tão deslumbrados a ponto de não buscarmos nada mais da parte de Deus. Alguns receberam um dom espiritual e pensam que aquele seria o único para o resto de suas vidas. Paulo escreveu aos coríntios: "Aquele que fala em línguas, ore para que possa interpretar" (ICor.14.13). O Senhor quer fazer muito mais através de nós, mas precisamos pedir, bater à porta e buscar a sua face (Mt.7.7).

"A alma farta pisa os favos de mel, mas para a alma faminta, todo amargo é doce" (Pv.27.7). Não sejamos fartos das coisas de Deus antes do tempo, porque, por mais que tenhamos recebido, isto ainda é pouco diante daquilo que ele tem para nós. Precisamos ter fome e sede da justiça de Deus e de tudo o que ele quer nos dar (Mt.5.6). Esta é uma condição essencial para o nosso crescimento espiritual.

Se ganhamos uma alma para Cristo, podemos ganhar muitas outras. Se oramos por alguém, podemos orar por muitas outras pessoas. Se jejuamos um dia, podemos jejuar dois. Se realizamos algo pelo reino de Deus, podemos fazer muito mais. Jesus espera que façamos obras maiores do que aquelas que ele fez (João 14.12). Vemos, portanto, a grande expectativa que ele tem a nosso respeito.

Alguns foram detidos em sua caminhada porque deram ouvidos às pessoas erradas.

Em qualquer situação, encontraremos conselhos de vários tipos. Alguns deles serão desestimulantes, como aconteceu com o cego de Jericó. Ele não enxergava, mas tinha um potencial, tinha olhos. Precisava, porém, de um toque divino. Primeiro, ele ouviu dizer que Jesus estava passando por ali. Então resolveu gritar a plenos pulmões: "Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim". Então, outras vozes surgiram, mandando que ele se calasse. É sempre assim. Muitos daqueles que enxergam, não querem ouvir os brados do cego (Mc.10.46-52). Quem já tem uma boa condição na vida, prefere que os menos favorecidos se calem e se conformem com seu estado. Outros, que também estão em situação ruim, não querem ficar para trás. Então, preferem que todos continuem onde estão.

Quando Neemias reconstruía as muralhas de Jerusalém, os inimigos se levantaram com um ataque verbal, dizendo: "Que fazem estes fracos judeus? Fortificar-se-ão? Oferecerão sacrifícios? Acabarão a obra num só dia? Vivificarão dos montões de pó as pedras que foram queimadas? Ainda que edifiquem, vindo uma raposa derrubará o seu muro de pedra" (Nee.4.1-3). Para combater um servo de Deus, a primeira estratégia do inimigo sempre será o uso de palavras destrutivas. E, às vezes, ele não precisa utilizar sua próxima arma, pois muitos caem com um simples grito ou com uma crítica suave. Ainda hoje, ele tenta nos desanimar quando buscamos o crescimento e, principalmente, quando estamos no meio da tribulação. Nessa hora, ele sempre tem um conselho que parece lógico e sensato, pois mostra uma possibilidade de alívio imediato através da desistência, quando o propósito de Deus é que fiquemos firmes em nossa luta, pois temos potencial para isso e muito mais. O inimigo queria que Cristo desistisse da cruz, ou que descesse dela, mas o propósito do Pai ia muito além, envolvendo a morte e a ressurreição (Mt.16.21-23; Mt.27.40).

Hoje, ouviremos muitas vozes que querem nos fazer recuar. Elas dizem: "Não precisa tanto... Deus não quer sacrifícios... Pra quê ir ao culto de novo? Pra quê contribuir tanto? Que desperdício... Você tem que aproveitar a vida..." O repertório é vasto, mas não se deixe levar por palavras de destruição que podem vir, inclusive, em forma de elogio. Se alguém disser que você já alcançou uma excelente posição, não acredite. Continue crescendo.

Outros não usam seu potencial porque foram subornados pelo Diabo.

O suborno é uma forma de desviar alguém de suas responsabilidades e funções. É um modo de vender o que não está à venda, negociando o inegociável. O inimigo tentou usar esta estratégia com Cristo ao oferecer-lhe os reinos do mundo com toda a sua glória, dizendo, "tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares" (Mt.4.8-9). Se Jesus se deixasse seduzir, seu potencial deixaria de ser usado, sua obra estaria comprometida. Ele deixaria de fazer o que fez e ser o que foi em seu ministério terreno.

Outros personagens bíblicos não foram tão felizes e aceitaram propostas que destruíram suas vidas:

- Esaú poderia ter sido um grande patriarca de Israel. O Senhor então se apresentaria como "Deus de Abraão, de Isaque e de Esaú". Entretanto, um prato de lentilhas jogou tudo por terra (Gn.25.27-34).

- Balaão era um homem à frente do seu povo e do seu tempo, um profeta verdadeiro, embora gentio, numa época em que os servos de Deus eram, geralmente, israelitas. Porém, seu ministério foi encerrado por causa de um suborno. Ele se deixou levar pelo amor ao dinheiro (Nm.22).

- Geasi poderia ter sido um grande profeta, sucessor de Eliseu, mas sua carreira foi encerrada pela força sedutora dos bens materiais (IIRs.5.15-27). - Judas Iscariotes poderia ter sido um grande apóstolo de Jesus, mas perdeu o ministério e a vida depois de vender o Mestre por trinta moedas de prata (Mt.26.14-16).

Estes são alguns exemplos de pessoas que deixaram de usar o potencial que possuíam, porque caíram em um laço mortal.

Ainda hoje, o Inimigo continua usando a mesma estratégia. Quantos músicos deixaram de tocar ou cantar na igreja porque receberam uma proposta interessante lá fora! Quantos perderam seus ministérios porque foram seduzidos pelos atrativos pecaminosos do mundo!

Além de usar nosso potencial, precisamos preservá-lo do mal que nos assedia como as raposinhas que saltam sobre as vinhas em flor (Ct.2.15). Caindo a flor, não haverá fruto.

O Inimigo tenta agir com a maior antecedência possível. Ele tentou matar Jesus antes que ele completasse 3 anos de idade (Mt.2.16; Ap.12.4-5), mas o Pai o protegeu até que se tornasse um adulto e cumprisse o seu ministério. Da mesma forma, somos atacados insistentemente pelo adversário, mas, permanecendo fiéis ao Senhor, somos mais do que vencedores.

Nosso potencial será utilizado, de forma poderosa, produzindo muitos frutos para a glória de Deus.


Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Utilize seu potencial - 2

Por quê muitos deixam de usar a capacidade que Deus lhes deu?

A vida nos coloca diante de inúmeras possibilidades e oportunidades,
mas deixamos de aproveitar muitas delas. Por quê isso acontece? Um
dos motivos é que estamos satisfeitos com o que já realizamos.

A satisfação é um estado desejável. Vivemos em busca desse
sentimento, que envolve senso de realização nas mais diversas áreas
da vida. Entretanto, estar satisfeito pode ser algo perigoso, por
mais estranho que pareça. Existe um risco sutil na felicidade de uma
conquista. Isto ocorre, sem que se perceba, quando alguém se
satisfaz em um estágio abaixo de seu potencial e de suas reais
possibilidades.

Em nossa trajetória, é justo que nos alegremos em cada nível
alcançado, mas não podemos deixar de olhar para o alvo. Precisamos
sempre avaliar aonde ainda podemos chegar. Não devemos ficar parados
na posição atual, a não ser que saibamos ser esta a expressa vontade
de Deus para nós. Geralmente, ele quer nos levar além, mas nós
queremos recuar.

Vencemos uma batalha, mas a guerra ainda não acabou.
Ganhamos um jogo, mas o campeonato precisa continuar.
O alpinista se alegra em cada trecho escalado, mas não pode parar no
meio da montanha. Ele precisa sempre olhar para cima e continuar.
Não existe mérito em se chegar ao meio da jornada. É um lugar
perigoso. A queda é sempre iminente.
Não adianta conceber e não dar à luz.

O ser humano, em geral, é propenso ao comodismo. E quando se trata
de uma posição alcançada com grande esforço, a acomodação parece até
justificável. Talvez o estágio alcançado seja bom, e isto é
enganosamente satisfatório. Acontece, que poderíamos ter chegado a
excelência, mas ficamos contentes com muito menos.

Vejamos alguns exemplos bíblicos: Eliseu mandou que o rei Jeoás, num
ato profético, ferisse a terra com uma flecha. Ele o fez por três
vezes. Então o profeta, indignado, explicou que este seria o número
de vezes que o rei venceria os Sírios. Ele poderia ter ferido a
terra muito mais e suas vitórias seriam numerosas. Contudo, ficou
satisfeito com pouco (IIRs.13.18-19).

Temos uma missão, possuímos dons e um grande potencial. Podemos
tanto e realizamos tão pouco. Ficamos satisfeitos com parte,
enquanto a plenitude nos espera. Nesse caso, nos assemelhamos aos
discípulos de Jesus, que estavam satisfeitos em Jerusalém, quando
Deus os queria levar aos confins da terra (At.1.8). Para isso,
precisou utilizar a perseguição como incentivo ao movimento.

Quando nos lembramos de onde saímos e vemos aonde chegamos, podemos
ter esse perigoso sentimento de satisfação. Quando olhamos para
frente e vemos o caminho que ainda precisa ser percorrido, então
sentimos a necessidade de prosseguir. Se eu me comparar com os mais
miseráveis da sociedade e da história, posso pensar que alcancei a
glória, mas, comparando-me a Cristo, e ele é o nosso modelo
(Ef.4.13; Heb.12.2), então reconhecerei que estou infinitamente
longe do lugar aonde posso e preciso chegar.

A igreja de Laodicéia considerava-se rica (Ap.3.14-18). Estava
satisfeita com sua situação, mas Deus veio lhe mostrar o ponto de
vista divino sobre a questão: a igreja era morna e acomodada. Este é
um caso em que o êxito material tornou-se obstáculo à busca
espiritual.

Por exemplo, a maioria das pessoas conhece pouquíssimo da bíblia,
mas o pior é que estão satisfeitas com isso. De fato, ignoram os
riscos da ignorância e desconhecem os benefícios do conhecimento.
Estão satisfeitas porque não sentem falta daquilo que lhes falta. O
problema se resume ao óbvio: sentimos falta daquilo que perdemos,
mas não do que nunca tivemos. O cego de nascença não sente falta da
visão. Ele não sabe o que é isso. Não sente falta da luz, pois não a
conhece, mas, na medida em que alguém fala, ele pode entender que a
visão é algo desejável. Observe-se a importância de se ouvir a
Palavra de Deus. Ela nos dá uma perspectiva daquilo que não podíamos
imaginar. A realidade é que não vislumbramos as vantagens de sermos
o que não somos, embora devêssemos ser. Então ficamos acomodados.
Não estamos indignados com o nosso estado, pois este pode ser o
único que conhecemos. Quando, porém, olhamos a vida de outra pessoa,
podemos imaginar como seríamos em situação semelhante. Nesse caso,
pode surgir a inveja, mas, se olhamos para o outro como um exemplo
plausível, tal observação pode ser positiva e despertadora.

O que conhecemos sobre Deus? Pouquíssimo. Entretanto, quantos estão
insatisfeitos em relação a isso? Normalmente, achamos que o nosso
conhecimento e experiência já são suficientes.

Antes de sua tribulação, Jó conhecia algo sobre o Senhor. Ele
parecia estar satisfeito. Afinal, era homem íntegro, reto, temente a
Deus e que se desviava do mal (Jó 1.1). Contudo, haveria de aprender
infinitamente mais, a ponto de dizer: "Com os ouvidos eu ouvira
falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos" (Jó 42.5).

Nas áreas em que atuamos na obra de Deus, alcançamos a excelência?
Talvez não, por causa da enganosa satisfação que sentimos com o
medíocre estado conquistado.

Muitos líderes estão satisfeitos com os poucos membros de sua
congregação. Cada um deles é uma dádiva divina, mas será este o
limite do potencial que Deus deu aos seus servos? Nossos talentos
podem ser multiplicados (Mt.25.14). O Senhor no-los deu porque viu
que tínhamos capacidade para o trabalho bem sucedido.

Esta deve ser uma das principais diferenças entre os servos de Deus
mencionados na bíblia e os da atualidade. O capítulo 11 de Hebreus
nos dá uma série de exemplos de pessoas que fizeram muito,
extrapolaram seus limites, e encerra dizendo que Deus reservou algo
ainda maior para nós, que somos a sua igreja.

Deus não faz grandes coisas na vida daqueles que já estão
satisfeitos com sua religiosidade, sua experiência ou seu nível
espiritual.

Como sair desta condição de paralisia espiritual? Precisamos
repudiar a idéia de que sabemos muito ou já realizamos o suficiente.
Estamos apenas começando. Pensemos na grandeza do pensamento divino,
ainda que não possamos perscrutá-lo. Deus estaria satisfeito
conosco?

Por outro lado, não queremos ser eternos insatisfeitos ou sentirmos
a insatisfação vivida pelo filho pródigo na casa do pai. Nossa
inconformação deve ser razoável, realista, baseada na palavra de
Deus e em suas propostas para nós.

Na vida estudantil ou profissional, no ministério e na santificação
pessoal, existe muito a ser alcançado.

"Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus" Rm.12.2.


Anísio Renato de Andrade
Bacharel em Teologia

 
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